A História do Plastimodelismo no Brasil

Para os iniciantes e simpatizantes do plastimodelismo, acredito que a primeira marca que vem à cabeça é a Revell. Isso não é à toa, pois ela foi a primeira marca de plastimodelismo a ser vendida no país. Os registros dessa história se encontram no brilhante trabalho de Roberto Tumminelli que entrevistou Maurício Nhuch e Leslie Kikoler, respectivamente genro e filho do dono da primeira empresa distribuidora de produtos da Revell no Brasil, a A. Kikoler do senhor Arno Kikoler.

Mesmo para quem não é (ainda) plastimodelista, é muito bacana saber como o hobby chegou ao país. Assim como nas histórias de grandes empresários há um ar de empreendedorismo, visão de uma grande oportunidade e superação de diversos obstáculos, além de histórias de vidas que pelas coincidências do destino acabaram se cruzando no caminho. Está curioso?

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P-47D na escala 1/72 com decalques da FAB

Nasce a ideia

No ano de 1957, Maurício Nhuch trabalhava no Estúdio Fotográfico Arno Kikoler e na A. Kikoler, uma pequena empresa que importava produtos fotográficos, ambas do senhor Arno Kikoler. Em 1958, quando Maurício casou com a filha de Arno, fez uma viagem aos Estados Unidos e em uma visita ao Museu de História Natural se deparou pela primeira vez com um modelo de plástico para montar um cavaleiro medieval. Muito curioso com a novidade, acabou por comprar um kit de um trem da marca Lionel pois achou o cavaleiro medieval um pouco complicado para montar.

Ao voltar ao Brasil, resolveu vender o kit pois percebeu que não bastava somente montar o trem e sim comprar várias outras peças para fazer uma maquete. Quando encontrou um comprador para o seu trem, Maurício foi indagado se não havia mais outros kits da Revell para venda. O comprador ainda trazia em mãos um kit de um avião ainda na embalagem, o que deixou Maurício entusiasmado pois percebeu que o avião era bem mais interessante para se montar do que o trem. Ele ainda tomou um susto pois achou o preço alto quando o comprador disse por quanto estava disposto a pagar por outros kits.

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Desenho da caixa do kit Mirage III sobrevoando Brasília

Surgia então a ideia de importar os kits para o Brasil e vendê-los na faixa de preço sugerida pelo comprador. Maurício foi conversar com o senhor Arno Kikoler que prontamente o incumbiu de enviar uma carta à Revell nos Estados Unidos pedindo o catálogo com os preços de seus produtos.

A perseverança empreendedora

Durante o planejamento, ao ver os preços da Revell e os custos alfandegários para trazê-los ao Brasil, verificou que o negócio ainda sim era viável e o mercado poderia pagar pelos valores dos kits. Dessa maneira surgia o primeiro problema dessa empreitada, como importar os kits se não havia dinheiro suficiente para a compra deles?

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Kit PBY-5 Catalina e foto com instruções de como aplicar os decalques

Persistindo e analisando alternativas, o senhor Maurício Nhuch foi atrás de empresas que possivelmente poderiam ser compradoras dos kits. Hábil negociador, conseguiu convencer algumas empresas a fazerem os pedidos com pagamento adiantado.

Muitas das lojas com quem Maurício conversou já conheciam o produto, pois os vendiam de forma ilegal e possuíam interesse em vendê-los legalmente. Outras lojas também se interessaram pela iniciativa, como a Hobbylândia, do Sr. Morimoto do Rio de Janeiro.

Assim, com vários acordos fechados e com o dinheiro em mãos, foi possível que a empresa A. Kikoler iniciasse a primeira importação dos kits para o Brasil. Já no primeiro pedido feito à Revell, além de atender as lojas com pedidos já realizados, foi possível vender os kits a mais que vieram.

A primeira importação foi um grande sucesso e todos os kits levaram poucas horas para serem vendidos, o que trouxe grande animação para que Maurício e Arno fizessem novos pedidos.

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Anos 70/80, funcionário colocando o plástico poliestireno na máquina injetora da fábrica da A.Kikoler no Bairro de Guadalupe no Rio de Janeiro/RJ. Foto: Roberto Tumminelli

A Fabricação no Brasil

Depois de quatro pedidos feitos à Revell, surgia a ideia da possibilidade de fabricação no Brasil a partir dos moldes vindos dos Estados Unidos, um fator que contribuiu para essa decisão foi a proibição na época, da importação de brinquedos para o país. Foi feito um pedido para a Revell que se interessou pela proposta, pois em muitos outros países a empresa mantinha acordos dessa forma e tinham interesse de fazer o mesmo por aqui.

O senhor Arno Kikoler então viajou aos Estados Unidos para convencer a Revell a fechar o acordo. Após um longo processo de convencimento e capacidade para transmitir credibilidade tanto da empresa quanto do Brasil, finalmente o presidente da Revell confiou toda a sua coleção de moldes para a produção no Brasil, seguindo um cronograma de remessas previamente agendado.

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Caixas de kit da Boeing 727 da Cruzeiro do Sul e Transbrasil, e Hercules C-130 da FAB

O acordo inicial era que a Revell encaminharia três moldes escolhidos pela Revell Brasil para serem fabricados aqui no país. A escolha se deu a partir de uma lista de dez modelos feita pelo senhor Arno e decididas por Maurício, que contou com a ajuda dos clientes lojistas para chegar nos modelos escolhidos. No final, foram escolhidos três moldes de avião: Boeing 707, Liberator B-24 (avião da 2ª Guerra) e o B-52 (avião militar).

Maurício enfrentou um novo problema, pois os moldes que chegaram dos Estados Unidos não eram nos mesmos padrões utilizados no Brasil. Cada molde pesava cerca de 1 tonelada e servia para injetar todas as peças de um avião completo. Para se ter ideia não havia fábrica com estrutura no Rio de Janeiro que conseguisse utilizar os moldes maiores, naquela época.

Os moldes tiveram que ser enviados para São Paulo, onde conseguiram produzir as peças em uma empresa de plástico que fabricava peças plásticas de automóveis. A fábrica pertencia ao senhor Dílson Funaro, que futuramente viria a ser Ministro da Fazenda na década de 80.

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Informações de uma caixa de kit da A. Kikoler

A. Kikoler Comércio e Indústria de Plásticos

Assim, começou a produção dos plastimodelos Revell no Brasil através da A. Kikoler. Somente os moldes dos kits eram importados para o Brasil, a embalagem, os decalques, folhas de instruções e até a matéria-prima do plástico (poliestireno) eram produzidas nacionalmente. Os kits vendidos vinham com um tubo de cola (Ki-kola), sendo que em outros países o costume era que a cola fosse vendida separadamente, além disso a A. Kikoler produziu um conjunto de tintas para quem quisesse customizar ainda mais seus kits.

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Tubo de cola Ki-kola presente em muitos kits vendidos pela A. Kikoler

Dezenas de modelos foram fabricados no Brasil e a A. Kikoler patrocinava eventos, concursos e trazia muitas novidades todos os anos através de seu catálogo anual que eram distribuídas nas revistas infantis da Editora Abril. Os kits viraram febre nacional nas décadas seguintes e eram vendidos nas grandes redes de lojas da época como Mesbla e Sears e encantaram a infância de gerações de crianças dos anos 60 até os anos 90.

Muitos kits ainda ganharam adaptações brasileiras, como um Boeing 727 da Cruzeiro do Sul e Transbrasil, e um Fokker da TAM. Em 1981, a A. Kikoler foi patrocinadora de um álbum de figurinhas chamado “Homens em Ação” que dava kits para quem achasse o vale brinde nos pacotes de figurinhas.

A empresa sempre enfrentou problemas financeiros por conta dos moldes que ficavam somente algumas semanas no Brasil. Eram produzidos kits de cada modelo suficientes para a venda em até dois anos e assim os custos ficavam altos por causa dos estoques.

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Carrinhos die-cast da empresa Roly Toys, de Maurício Nhuch. Foto: José Rodrigo Octavio

Em 1963, Maurício Nhuch saiu da A. Kikoler para fundar a empresa Roly Toys, que fez as primeiras importações da marca Airfix e Matchbox, anos mais tarde fechou a empresa e voltou a trabalhar na A. Kikoler quando Leslie Kikoler (filho de Arno) era sócio e diretor da A. Kikoler. Maurício ficou até meados de 1985, quando a crise financeira no país tornou difícil a sobrevivência de empresas de médio porte.

Com o agravamento da crise financeira no Brasil, inflação galopante e juros altos somados com a doença avançada do senhor Arno, Leslie Kikoler tomou a difícil decisão de encerrar as atividades da empresa e a A. Kikoler fechou as portas em 1991.

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Catálogo anual da Revell distribuído nas revistas infantis da Editora Abril. Foto: Roberto Tumminelli

O Plastimodelismo no Brasil

Desde o pioneirismo do Senhor Arno e Maurício Nhuch nos anos 1958 e a febre nacional do hobby nas décadas seguintes, muitas outras marcas foram fabricadas no Brasil. A própria A. Kikoler deteve o licenciamento das marcas MPC e IMC, além de ter ajudado na fabricação de modelos das marcas Heller, Airfix e Monogram. A empresa de Maurício Nhuch, a Roly Toys deteve o licenciamento das marcas Airfix e Frog.

Na década de 80, a Tamiya, marca reconhecida mundialmente como uma das maiores fabricantes de modelos plásticos do Japão instalou uma unidade de produção no Brasil. Na década de 90, uma empresa genuinamente brasileira chamada MASTERKIT lançou alguns modelos no mercado, mas faliu em 1994. No mesmo ano em que a Estrela S/A passou a comercializar os modelos da Revell Alemã.

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Sr. Maurício Nhuch com seu neto e Sr. Kurt Adolf Hamberger da Roly Toys em evento de 2002. Foto: Roberto Tumminelli

Atualmente, não há mais nenhum fabricante nacional de plastimodelos (embora haja manufaturas de itens em resina, como a Duarte Models), porém hoje é possível encontrar algumas lojas especializadas em Plastimodelismo que surgiram principalmente a partir da década de 90 com a reabertura das importações no Brasil. O hobby desde então vem se consolidando e se tornando acessível aos mais jovens, com maiores ofertas de materiais e kits importados.

O Plastimodelismo no Brasil é muito grato ao pioneirismo e empreendedorismo dessas pessoas visionárias, que com muita dedicação fizeram de um passatempo os seus negócios, e assim possibilitaram levar alegria e diversão à diversas gerações de crianças e adultos pelo país inteiro.

Fonte: http://blog.usinadoskits.com/historia/a-historia-do-plastimodelismo-no-brasil/

 

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